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6

maio

JOÃO XXIII E JOÃO PAULO II SANTOS E TESTEMUNHAS DA FÉ CATÓLICA

João Paulo II e João XXIII se tornam santos – Canonização foi presidida pelo Papa Francisco na Praça de São Pedro. Papa Bento XVI também participou da cerimônia presenciada por milhares.

 

Na cerimônia inédita realizada no domingo, dia 27 de abril de 2014, na Praça de São Pedro, no Vaticano, e acompanhada por milhares de fiéis católicos, o Papa Francisco canonizou dois antecessores: o polonês João Paulo II e o italiano João XXIII com estas palavras: “Declaramos e definimos como santos os beatos João XXIII e João Paulo II e os inscrevemos no Catálogo dos Santos, e estabelecemos que em toda a Igreja sejam devotamente honrados entre os Santos”. Esta foi a fórmula pronunciada em latim pelo Papa Francisco, após a qual a multidão na praça rompeu em aplausos.

 

A canonização dupla reuniu, em um único evento, o atual Papa Francisco e o Papa Emérito Bento XVI, que renunciou no ano passado em uma situação inédita na história moderna da Igreja Católica.

 

Francisco presidiu a missa solene com cinco prelados, entre eles o bispo de Bérgamo (cidade natal do Papa italiano João XXIII), Francesco Beschi, e o ex-secretário particular do Papa João Paulo II e arcebispo de Cracóvia, Stanislaw Dziwisz.

 

O Papa Francisco em seu discurso recordou que “Estes foram dois homens de coragem. Deram testemunho diante da Igreja e do mundo da bondade e misericórdia de Deus. Eles viveram os trágicos acontecimentos do século XX, mas não foram oprimidos por eles. Para eles, Deus era mais poderoso, a fé era mais poderosa”.

 

As relíquias dos dois novos santos, uma ampola de sangue de João Paulo II e um pedaço de pele de João XXIII extraída durante sua exumação no ano 2000, foram colocadas ao lado do altar, rodeada de flores.

A costarriquenha Floribeth Mora, cuja cura inexplicável permitiu elevar aos altares João Paulo II, levou a relíquia do Papa polonês, enquanto a de João XXIII foi entregue por seu sobrinho.

 

A cerimônia de canonização teve os mesmos moldes de uma missa e foi simples, sóbria e sem extravagâncias.

Bento XVI seguiu a cerimônia no setor esquerdo do altar, junto com os cardeais e os 1.100 bispos que concelebraram sucessivamente a missa.

 

Em 2011, a beatificação de João Paulo II, feita por Bento XVI, durou três dias e reuniu 1,5 milhão de fiéis na praça e nos seus arredores, segundo a polícia de Roma.

 

O Vaticano, citando fontes da polícia italiana, estimou que cerca de 800 mil pessoas participaram da celebração.

Os poloneses – conterrâneos de João Paulo II, foram os estrangeiros mais numerosos presentes. Para tal evento, trens especiais foram colocados em circulação para a viagem desde a Polônia.

 

A cerimônia do lado de fora da Basílica de São Pedro permitiu que mais pessoas participassem do evento. Bandeiras de vários países, inclusive o Brasil, podiam ser vistas na multidão.

 

A praça foi enfeitada com 30 mil rosas vermelhas, amarelas e brancas doadas pelo Equador, cujo presidente, Rafael Correa, estava presente na cerimônia. Telões foram espalhados na Praça e pela cidade de Roma, que teve esquema especial de trânsito para a celebração, com bloqueio de ruas e reforço nos transportes públicos.

 

Após a cerimônia, Francisco percorreu a Praça de São Pedro no Papamóvel, cumprimentando os fiéis. Antes, ele levou cerca de 40 minutos para cumprimentar os integrantes das 93 delegações internacionais que compareceram à festa.

 

Este evento foi precedido por uma vigília: a celebração dos novos santos começou na noite de sábado, dia 26 de abril, com a “noite branca de oração”. Diversas igrejas no centro de Roma foram abertas para aqueles que quiserem rezar e se confessar. A Basílica de São Pedro ficou aberta em um esquema especial, até 01h00 da segunda-feira, dia 28 de abril. Os peregrinos puderam visitar o túmulo dos dois Papas, no subsolo da igreja.

 

Os caminhos que não se cruzaram por acaso: Papa João XXIII e Papa João Paulo II foram homens de transformações na Igreja e no mundo. João Paulo II, por exemplo, se encarregou de decretar as “virtudes heroicas” e a beatificação de João XXIII. Juntos, os dois simbolizam a abertura para o mundo e a confiança de ser católico.

 

Ambos os pontífices, cuja bondade e carisma fizeram com que após a morte fossem solicitadas suas beatificações por aclamação, atravessaram nos últimos anos um complexo processo de canonização, requisito “sine qua non” para se tornar um santo católico.

 

João Paulo II foi canonizado apenas nove anos após sua morte, em 2005. O segundo milagre atribuído ao polonês Karol Wojtyla, que nasceu em 1920 e liderou a Igreja Católica entre 1978 e sua morte, foi reconhecido pelo Vaticano em julho de 2013. Já João XXIII, que foi Papa entre 1958 e 1963, foi canonizado com apenas um milagre comprovado.

 

A primeira etapa da canonização é ser reconhecido Servo do Senhor. Para isso, os postuladores da causa apresentam um relatório à Santa Sé, que, após examiná-lo, tem que emitir o decreto “Nihil Obstat”. Com este decreto, é iniciado oficialmente o processo, e o postulante é nomeado Servo do Senhor.

 

O processo de João XXIII foi aberto em 1965, dois anos após sua morte, enquanto o do pontífice polonês começou no ano de seu falecimento, em 2005, por desejo expresso de seu sucessor, Bento XVI, que eliminou o requisito canônico de se esperar cinco anos após a morte para o início do trâmite da causa.

 

A etapa seguinte consiste em reconhecer suas “virtudes heroicas”, um título que os transforma em Veneráveis Servos do Senhor. Para que isto ocorra, uma comissão jurídica do Vaticano se reúne para estudar a ortodoxia dos textos que publicaram em vida e para analisar os testemunhos de pessoas que os conheceram.

 

Em seguida, o relator do processo, nomeado pela Congregação para a Causa dos Santos, elabora um documento denominado “Positio”. Um compêndio dos relatos e dos estudos realizados pela comissão, assim que aprovado pelo pontífice, concede o título de “Venerável Servo do Senhor”, o segundo passo em direção à santidade. João XXIII tornou-se Venerável em 1999, mais de três décadas após sua morte, enquanto João Paulo II obteve o título em 2009, quatro anos depois de seu falecimento.

 

Após serem considerados Veneráveis, o passo seguinte é o da beatificação. Ser beato, ou bem-aventurado, significa representar um modelo de vida para a comunidade e, além disso, que essa pessoa tem a capacidade de agir como intermediário entre os cristãos e Deus. Por esta razão, para alcançar este grau, é imprescindível o testemunho de um milagre que tenha sido realizado graças à intercessão do Venerável.

 

Ao Papa italiano foi atribuída em 2000 a cura da religiosa italiana Caterina Capitani, que esteve a ponto de morrer por uma perfuração gástrica hemorrágica com fístula externa e peritonite aguda. Ela conta que, após pedir um milagre a João XXIII, conseguiu sobreviver.

 

Já ao Papa polonês são atribuídas centenas de milagres, embora para sua beatificação, em 2011, tenha sido imprescindível o caso da freira francesa Marie Simon Pierre, que sofria de Parkinson, a mesma doença que João Paulo II tinha, e cuja cura, de acordo com os médicos externos convocados pelo Vaticano, “carece de explicação científica”. Com estes milagres realizados por intercessão divina dos pontífices tendo sido aprovados, João XXIII e João Paulo II subiram oficialmente aos altares como beatos da Igreja Católica, o primeiro em 2000, e o segundo, em 2011.

 

A religiosa curada por João Paulo II rezou pelos doentes e feridos pela vida: A irmã Marie Simon-Pierre, a freira curada milagrosamente do mal de Parkinson pela intercessão de João Paulo II, esteve na Praça de São Pedro no dia destas canonizações em Roma. O milagre de Deus obtido por intercessão do papa polonês permitiu a beatificação de Karol Woytila, assim como a cura milagrosa de um aneurisma cerebral da costarriquenha Floribeth Mora abriu o caminho para a canonização. As duas mulheres estiveram presentes na Praça de São Pedro neste dia importante para nossa Igreja.

 

Depois disso, ainda é preciso passar por mais uma fase para encerrar o complexo processo. Trata-se da canonização, sua proclamação como santos, para a qual é requisito imprescindível um novo milagre, que deve ocorrer após sua nomeação como beato. É aqui onde se dá outra particularidade que caracteriza a causa de João Paulo II e João XXIII.

 

No caso do Papa João XXIII, o Papa Francisco, em 2013, decidiu canonizá-lo sem ter sido certificado o segundo milagre. A decisão do Papa de canonizá-lo sem registro de milagre, algo não muito frequente nas últimas décadas, é uma prerrogativa do chefe da Igreja, segundo as normas do Vaticano.

 

Já João Paulo II, intercedeu, segundo a Igreja, na cura de uma mulher costarriquenha que sofria de um grave aneurisma cerebral e que, segundo os médicos, tinha apenas um mês de vida. Esta mulher, Floribeth Mora Díaz, que participou da cerimônia da missa no domingo, dia 27 de abril, garante ter ouvido a voz do papa polonês afirmando: “Levante-se, não tenha medo”, quando estava internada em um hospital. E após ouvir estas palavras, começou seu processo de cura, inexplicável para a ciência. Esta senhora também a saudei na Praça São Pedro na audiência do Papa Francisco neste dia 30 de abril de 2014, junto ao bispo de sua diocese (vindo da Costa Rica) e um grupo de fiéis costarriquenhos.

 

O “domingo dos quatro papas”, como ficará conhecido esse domingo, começou com o tempo fechado. Garoava quando bispos do mundo inteiro ocuparam os seus lugares no presbitério. Também não coube toda a gente na praça, que ficou completamente tomada até a Via da Conciliação e arredores. O Vaticano, a partir de estimativa da polícia de Roma, divulgou que 800 mil pessoas participaram da missa, incluindo as que assistiram ao rito pelos telões espalhados nos arredores, bem como em algumas Praças da cidade de Roma, a exemplo da Piazza Navona (embaixada brasileira) repleta de estrangeiros.

 

Chegava a hora de Francisco falar. Em pé, o pontífice argentino leu por oito minutos, com o característico tom de voz suave, em contraste com os gestos fortes, quase que compondo o cenário de um discurso simples e direto. Falou de João XXIII como “o papa da docilidade ao Espírito Santo”, e de João Paulo II como “o papa da família”, levando os fiéis ao delírio. Disse que ambos conheceram tragédias, mas não foram vencidas por elas. “Mais forte, neles, era Deus”.

 

Por duas horas e oito minutos, a multidão participou prazerosamente de uma cerimônia sem extravagâncias e profunda, do ponto de vista litúrgico. Visivelmente esgotados, peregrinos se espremeram ainda mais no instante da comunhão. Ajoelhados ou se apoiando uns nos outros, muitos choraram ao receber a eucaristia. Quando o papa deu a bênção final, o sol surgiu na praça.

 

Depois de saudar Bento XVI pela segunda vez e de passar quarenta minutos cumprimentando autoridades, Francisco subiu no papamóvel e foi em direção ao povo, que não arredou o pé. Com palmas e cantos mais animados em diversas línguas, a multidão o saudou o santo Padre efusivamente. Era o fim de uma manhã histórica, em pleno Domingo da Misericórdia. Selava-se a semana da Páscoa, tempo de renovação para uma Igreja que renova os esforços para caminhar mais próxima do povo.

 

Finalizando, nasci no período em que veio na Igreja o Papa João XXIII. Somente ouvi falar dele neste período da infância, podendo mais tarde ler e estudar sua forte influência na condução do Concílio Vaticano II. O Papa João Paulo em sua visita ao Brasil (1980), pudemos conhecê-lo mais de perto, tal o seu carisma e sua mensagem aos jovens, trabalhadores, religiosos/as, sacerdotes, seminaristas, leigos/as, entre outros. Em 1990 o conheci mais de perto numa visita que fiz a convite de um bispo de Minas Gerais: dom Leonardo de Miranda Pereira. Assim, pude conhecer seu carisma e sua dedicação às questões internas da Igreja, bem como sua mensagem profética para os desafios do mundo em sua época. Dois Papas contemporâneos, dois santos que edificaram nossa Igreja e que estão intercedendo por todos nós junto a Deus. Ao final pude rezar junto às relíquias dos Papas e no túmulo de São João Paulo II por todos vocês e suas famílias.

 

 

Dom Vilson Dias de Oliveira, DC

Bispo Diocesano de Limeira, SP

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